A Globalização do Isolamento

Que ironia!
Abrimos as fronteiras do mundo para nos trancarmos atrás das portas de nossas casas.
Estamos diante da certeza de que o incerto é implacável.

 

Vê-se que a fortaleza do poder, da riqueza, da importância, do domínio, da imposição, se mostra tão frágil ante um momento para o qual, aparentemente, serviria.

 

A máxima do “o que os olhos não veem o coração não sente” mostra que seu prazo de validade está vencendo, se não caiu por completo.

 

A percepção de que a criança tão indefesa é mais forte do que seus robustos pais nos expõe a constatação de que os fracos nem sempre perdem.

 

A saudade nos lembra do quanto gostamos de quem esquecemos no cotidiano.

 

Nossa corrida desenfreada está indicando que não sabemos onde vamos chegar e que, se chegarmos, o que vamos encontrar.

 

Andando tão rápido por longo tempo, hoje percebemos que se não retrocedemos, pelo menos ficamos no mesmo lugar em muitos aspectos.

 

O medo do invisível agora escancara nosso prazer em ficar longo tempo a olhar pelas janelas de nossas casas.

 

Estamos nos dando conta de que a saúde de nossos inimigos é amiga do nosso bem viver.

 

Impressionante nos darmos conta de que, embora o tempo não volte, ele nos possibilita voltar para refletirmos.

 

Vemos que o tempo não nos acelera, mas sim que nós o atropelamos para pouco dele usufruirmos de maneira agradável.

 

Nosso materialismo exacerbado clama por moderação e nos adverte que ninguém é mais rico do que um saudável homem pobre.

 

Quantas futilidades, obviamente desprovidas de razão, poderiam ter sido substituídas por algo mais solidário. Triste constatação.

 

O contexto atual nos obriga a dizer ser difícil viver o hoje. Em função da vida de ontem, temos que parar e esperar que Deus nos conceda o bem do amanhã para continuarmos vivendo.

 

No momento, temos que parar e esperar que Deus nos conceda o bem do amanhã para continuarmos vivendo.

 

Aqui pensamos: menos mal que a vida que virá será diferente desta balbúrdia que o modernismo nos impôs e que nós, ingênua ou despreocupadamente, abraçamos. Todavia, somente em pensamento de agora não basta, precisaremos praticar amanhã.

 

Hoje sentimos quão belas são as rugas da face dos nossos avós, quão agradável é o choro das crianças que nos fazem falta, quão atuais são os retrógrados conselhos dos nossos pais.

 

Percebe-se neste reflexivo retiro forçado como é agradável nosso lar, como é confortável nossa roupa desbotada, como somos bonitos sem maquiagens, como é gratificante cuidar de nosso canto e como dependemos dos familiares para sobrevivermos. Todos fatos que até então não tivemos tempo para observar.

 

Neste confinamento coercitivo, nos damos conta de que seria interessante que todos tivessem álcool gel, fármaco que muitos têm sobrando e que por isso falta aos outros, para que nossa saúde fosse preservada.

 

Estamos presenciando o ruir dos nossos muros separatórios, face uma competitiva abertura global, que nos levou à avidez econômica, ao ter em detrimento do ser. Talvez tarde para tal inquietude.

 

Nosso querer ser mais nos fez esquecer de viver. Agora ameaçados, percebemos que necessitamos esquecer muitas das frívolas mazelas para podermos viver daqui em diante.

 

Este silêncio ensurdecedor nos assusta por sua eloquente mensagem, a de que é bom podermos parar para pensarmos em mudar tudo o que de ruim temos feito.

 

Torcemos para que este enorme invisível nos ajude a ver o quanto de cegueira as coisas contemporâneas nos causaram e doravante, mesmo que não curados, saber usar as lentes que nos mostrem com clareza a nova trilha a seguir.  Que ironia!

Conselheiro Eng. Agr. e Seg. Trab. Edélcio Paulo Bonato
Joaçaba – SC
Abril/2020