Confira a entrevista com a Eng. Agr. Edilene Steinwandter, primeira mulher na presidência da Epagri/SC

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A Eng. Agr. Edilene Steinwandter foi listada pela Forbes como uma das 100 mulheres que se destacam no agronegócio. Filha de agricultores e indicada ao atual cargo pelos colegas de trabalho, a engenheira é a primeira mulher a assumir a presidência da Epagri/SC (Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina), criada em 1991 e vinculada ao governo do estado. Edilene é formada em Agronomia pela Universidade do Estado de Santa Catarina (1999), tem mestrado em Zootecnia pela Universidade Federal de Santa Maria (2009) e especialização em Produção de Ruminantes pela Universidade Federal de Lavras. Está na Epagri desde 2002, quando foi concursada como extensionista.

 

Nesta entrevista concedida à Assessoria de Imprensa e Comunicação do CREA-SC (AICOM), ela fala do papel e representatividade da mulher nas áreas da engenharia, agronomia e geociências, dos projetos e desafios da Epagri visando fomentar o agronegócio e a economia do Estado e das parcerias com CREA-SC.

 

O que significa estar na relação das 100 mulheres poderosas do agronegócio brasileiro, segundo a Forbes?

 

Significa sobretudo reconhecimento, mas não só ao meu trabalho. Significa reconhecimento ao trabalho desenvolvido pelos mais de 1,6 mil funcionários da Epagri, e a todas as famílias agricultoras, pescadoras e maricultoras do Estado, nossas maiores parceiras nessa jornada.

 

Na lista estavam também outras duas mulheres catarinenses e mais três que atuam em empresas do estado. Como as profissionais da engenharia, agronomia e geociências podem buscar maior inserção e reconhecimento em suas áreas de atuação?

 

É preciso força e determinação, pois o universo destas profissões é, historicamente, bastante masculino. Estar sempre atualizada em suas áreas, estar atenta ao que há de mais novo no mercado, participar de fóruns de discussão, da construção de políticas públicas, se posicionar sobre os assuntos com conhecimento e segurança, são algumas estratégias que estas profissionais podem adotar em busca de maior inserção e reconhecimento. Infelizmente, ainda é preciso um esforço a mais das mulheres, na comparação com os homens, para ter destaque em suas áreas técnicas, mas, pela minha experiência, vejo que este cenário está aos poucos se modificando e em breve não haverá mais esta distinção de gênero nestes meios profissionais. Assim esperamos e estamos trabalhando neste sentido.

 

O CREA-SC mantém um diálogo constante com o setor público ressaltando a importância da ocupação de cargos da área técnica por profissionais habilitados. Qual a importância desta premissa para aprimorar as gestões governamentais?

 

No caso da Epagri, a contratação de profissionais habilitados representa uma segurança para toda a sociedade catarinense. Entendo que a presença de profissionais habilitados ocupando cargos técnicos é premissa indispensável para cumprimento da nossa missão, que é produzir conhecimento para o desenvolvimento rural com sustentabilidade. São estes profissionais habilitados que, na maioria das vezes, ocupam cargos de gestão na Epagri, assim, nos empenhamos também em oferecer capacitações a nossos gerentes, coordenadores, etc, para que eles possam agregar conhecimentos gerenciais às suas habilidades técnicas. Desta forma, temos conseguido aprimorar cada vez mais a gestão, fazendo da Epagri um modelo nessa área para Santa Catarina e o Brasil.

 

A Epagri completou 30 anos de história. Qual o impacto direto do trabalho realizado pela entidade na vida dos catarinenses?

 

A Epagri ajuda a produzir o alimento que está diariamente na mesa dos catarinenses e dos brasileiros. Nosso trabalho, em conjunto com os agricultores, pescadores e outros parceiros, fez de Santa Catarina uma potência da agricultura nacional. Somos maiores produtores de cebola, maçã, moluscos e suínos do país e ocupamos a segunda colocação em importantes cadeias produtivas, como arroz e frango. Tudo isso ocupando apenas 1,13% do território nacional.

Além de contribuir para a segurança alimentar da população, a atuação da Epagri também traz sustentabilidade ambiental ao Estado. Nossos profissionais trabalham incansavelmente na elaboração e implantação de tecnologias que visam a conservação do solo e da água e que oferecem condições de produção de alimentos cada vez mais limpos, seguros e saudáveis.

Também contribuímos para diminuir o êxodo rural, que se reflete em equilíbrio social para o Estado. Desde 2012 já capacitamos cerca de 3 mil jovens, que encontram em nossos cursos ferramentas para permanecerem em suas atividades rurais ou pesqueiras por opção profissional, e não por falta dela, garantindo rentabilidade sem precisar migrar para as cidades em busca de empregos.

 

CREA e Epagri mantêm uma relação de cooperação através de convênios. De que forma estas parcerias beneficiam os profissionais e a sociedade catarinense?

 

A parceria entre Epagri e CREA interessa a toda a sociedade, no sentido de que o Conselho atesta e garante a atuação ética dos profissionais a ele credenciados. Para a Epagri, é uma honra contar com a cooperação de uma instituição tão prestigiada.

Confira a homenagem prestada pelo Crea-SC à presidente da Epagri, Eng. Agr. Edilene Steinwandter

 

A economia de Santa Catarina distribui-se da indústria ao comércio, do turismo à tecnologia, mas o agronegócio tem um lugar de destaque com 30% de participação no PIB e 70% nas exportações. Como a Epagri fomenta este setor?

 

Toda a estrutura da Epagri está voltada para fomentar o desenvolvimento sustentável nos meios rural e pesqueiro. Contamos com 13 unidades de pesquisa estrategicamente distribuídas por Santa Catarina com o objetivo de produzir conhecimento e tecnologias voltadas para a vocação rural e pesqueira de cada região. Estamos presentes em todos os municípios catarinenses com pelo menos um extensionista rural. Também na área de extensão, dispomos de 16 Gerência Regionais, que coordenam esse grandioso trabalho. Nossa estrutura compreende ainda 13 Centros de Treinamento, equipados com salas de aula, refeitórios, dormitórios e outras equipamentos que permitem receber agricultores, pescadores e técnicos para as mais diversas capacitações. A equipe da Epagri conta com 1667 colaboradores, 40,6% atuando diretamente na extensão, 25,3% na pesquisa, 26,5% na área meio e 7,5% na gestão da Empresa. Quando colocamos toda essa estrutura e o conhecimento por ela produzido à disposição da agricultura e da pesca, temos certeza de que contribuímos para produção de riquezas que revertem em benefício de todos os catarinenses.

Não é à toa que a Epagri, sendo uma das poucas empresas públicas do país que unem pesquisa e extensão rural e pesqueira, tornou-se um exemplo nacional de eficiência no atendimento ao seu público. Também somos responsáveis por operacionalizar as políticas públicas estaduais e federais que dão o suporte econômico necessário para que as atividades rurais e pesqueiras do Estado se mantenham competitivas.

Tecnicamente, a Epagri se organiza para atender às demandas e fomentar a agropecuária e pesca através de seus macroprogramas: cadeias e arranjos produtivos, fortalecimento do capital social e humano, melhoria da qualidade socioambiental. Eles se subdividem em seis programas: aquicultura e pesca; fruticultura, gestão e mercados, grãos, olericultura, pecuária, gestão e desenvolvimento institucional, capital humano e social, e desenvolvimento e sustentabilidade ambiental. Desta forma, garantimos o fomento às principais cadeias produtivas do agronegócio e da pesca catarinense, e cumprimos também com o estabelecido em nossa missão, objetivos e visão.

 

O estado manteve crescimento durante a pandemia. Segundo o IBGE, são mais de 180 mil estabelecimentos agropecuários que geram cerca de 700 mil empregos diretos e indiretos. Quais as projeções para 2022?

 

Nossas projeções para 2022 são otimistas e de esperança por boas colheitas em todos os campos de atuação da agricultura, da pesca e da maricultura. Segundo estimativas dos técnicos do Centro de Socioeconomia e Planejamento Agrícola (Epagri/Cepa), se o clima continuar ajudando, a safra 2021/22 terá um saldo positivo em relação à safra 2020/21, tanto em volume quanto em valor global. Importante destacar aqui que a safra 2020/21 foi muito boa, especialmente em termos de preços pagos aos produtores.

Ainda é cedo para falar com total propriedade sobre a safra de grãos 2021/22, mas a Epagri/Cepa espera uma produção muito boa para o próximo ano, melhor ainda do que foi 2021. O milho deve retomar a produção de 2,7 milhões de toneladas na safra 2021/22, uma importante recuperação diante do ciclo agrícola anterior, onde o clima derrubou a produção total para 1,8 milhão de toneladas. Por outro lado, deve haver uma queda de preços do cereal. A soja deve aumentar área plantada e produção, com preço estabilizado em patamares altos, como foi ano passado. O trigo está começando a ser colhido e teve uma safra espetacular em todos os aspectos, com crescimento bastante bom em termos de área e de preço. A exceção fica por conta do arroz, que terá uma safra menor em relação a 2020/21, que foi muito boa, com preços caindo bastante para a safra 2021/22.

A avaliação da Epagri/Cepa indica também que tanto frangos, como bovinos, suínos e leite devem ter um pequeno crescimento na produção em 2022, com preços se mantendo estáveis. Portanto, podemos projetar para o ano que vem um pequeno aumento no valor da produção das proteínas em Santa Catarina.

As frutas devem ter, de modo geral, uma produção um pouco melhor do que em 2021, que foi uma safra que teve problemas pontuais. Vai depende bastante ainda do que venha a ocorrer com o clima até se consumarem as colheitas, mas a expectativa é boa.

No setor de florestas, o mercado deve continuar aquecido em 2022, com alto volume de produção e preços bastante altos, assim como foi 2021.

 

 

A Epagri anunciou investimentos de R$ 27 milhões em 2021 para seis programas da Secretaria de Agricultura? Quais os setores que serão beneficiados?

 

Estes foram investimentos anunciado pela Secretaria de Estado da Agricultura, da Pecuária e do Desenvolvimento Rural no começo do ano para serem aplicados em programas que são operacionalizados pela Epagri. A atuação se dá em cinco frentes: financiamentos sem juros; subvenção de juros de financiamentos contraídos junto aos agentes bancários; políticas públicas para jovens e mulheres; apoio para cuidar do solo e conservar água e apoios emergenciais.

No site da Secretaria é possível conhecer cada programa: https://www.agricultura.sc.gov.br/

 

Um dos programas é voltado à infraestrutura hídrica do Estado. De que forma este investimento pode impulsionar o agronegócio e a preservação dos mananciais?

 

Estes projetos que visam a captação e reservação de água são fundamentais para o bom desenvolvimento do agronegócio catarinense. Períodos de estiagem nas principais regiões produtoras do Estado são comuns. Assim, as soluções precisam ser de médio e longo prazo, buscando que o agricultor tenha condições de enfrentar esses eventos climáticos sem grades dificuldades para continuar com suas produções agropecuárias. Assim, a construção de poços, de cisternas, de sistemas e captação de água da chuva, bem como a implementação de tecnologias para preservação de água e solo, servem como um alento para o agricultor na hora em que ele mais necessita.

A expectativa é de que, em breve, os agricultores que tiverem seus projetos implementados não sofram mais com a escassez de água e possam atravessar os períodos de estiagem sem grandes prejuízos para a produção agrícola e animal. Com mais produção no campo, os preços dos alimentos na cidade não se elevam, e todos acabam beneficiados.

 

O que representa profissionalmente e  pessoalmente ser a primeira mulher à frente da gestão da Epagri?  

 

É um orgulho e uma grande responsabilidade. Orgulho de poder representar a força das mulheres no agronegócio catarinense e reponsabilidade de manter a Empresa como modelo para o Brasil.

 

 

Currículo resumido


Edilene Steinwandter possui graduação em Agronomia pela Universidade do Estado de Santa Catarina (1999), mestrado em Zootecnia pela Universidade Federal de Santa Maria (2009), especialização em Produção de Ruminantes pela Universidade Federal de Lavras. Ingressou na Epagri em 2002, exercendo a função de extensionista rural no município de Ponte Serrada. No ano de 2011 assumiu o cargo de gerente regional de Xanxerê e em 2015 tornou-se gerente estadual de extensão rural, onde permaneceu até a posse na presidência da Epagri, em 7 de fevereiro de 2019. É a primeira mulher a presidir a Epagri.