Armazenagem da safra agrícola catarinense – Eng. Agr. Ari Geraldo Neumann

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O Estado de Santa Catarina, com apenas 1,13% do território nacional, está entre os seis principais produtores de alimentos e apresenta os maiores índices de produtividade, graças à capacidade de trabalho do agricultor, ao emprego de tecnologias atualizadas e ao caráter familiar de quase 90% dos estabelecimentos agrícolas.
  
O setor primário catarinense destaca-se no cenário nacional, situando-se entre os maiores produtores de maçã, cebola, fumo, mel, carne suína, carne de aves, ostras e outros. No âmbito estadual, o agronegócio participa com 37% dos empregos, 60% das exportações e 26% do PIB estadual.

Uma parcela significativa da população ainda vive no meio rural, apesar da menor renda em relação à população urbana. Nos últimos anos, não se conseguiu conter o êxodo rural nas diversas regiões do Estado, tanto que a população rural passou de 30% para menos de 20% nos últimos vinte anos. A população total do Estado aumentou 30%, enquanto a população rural diminuiu 15% no mesmo período. 

Para manter a competitividade do agronegócio catarinense, preservando o atual modelo agrícola de pequenas propriedades, é fundamental a realização de investimentos em áreas que se apresentam como gargalos ao desenvolvimento do setor primário.

Um dos gargalos importantes do setor é o déficit de armazenagem para grãos e frutas (câmaras frias), sendo fundamental a definição de uma política pública que venha a facilitar e incentivar a realização dos investimentos necessários à sua solução.

Analisando o setor de grãos, a capacidade estática de armazenagem cadastrada em Santa Catarina (Fonte CONAB 09/2020) encontra-se na seguinte situação: 305 unidades armazenadoras do tipo convencional com capacidade para 715.655 toneladas e 644 unidades do tipo Granel com capacidade para 4.144.992 toneladas totalizando 949 unidades com uma capacidade de 4.860.647 toneladas.

Segundo informações da Organização das Cooperativas do Estado de Santa Catarina – OCESC, o setor cooperativista investiu nos últimos anos cerca de R$ 25 milhões, ampliando a capacidade de armazenagem em torno de 250 mil toneladas. O sistema cooperativo agropecuário de Santa Catarina dispõe de silos e armazéns próprios com capacidade para 2,1 milhões de toneladas.

A OCESC é uma das organizações que está engajada na reivindicação de uma política que estimule a ampliação da rede de armazéns, através de linhas específicas de crédito para construção, compra de equipamentos e reforma das unidades existentes, com subvenção dos juros referentes aos financiamentos dos investimentos a serem realizados nesta área, conforme já ocorreu no passado.

A produção de grãos em Santa Catarina, em anos normais, situa-se em torno de 6,4 milhões de toneladas (ver quadro 1). Para dimensionar o déficit de armazenagem no Estado é fundamental considerarmos também o déficit existente no balanço de oferta/demanda de milho e soja (quadro 2). Desta forma, a necessidade total de armazenagem no Estado soma em torno de 7,9 milhões de toneladas, o que resulta em uma diferença superior a 3 milhões de toneladas em relação à capacidade estática existente.

Quadro 1 – Produção de Grãos em Santa Catarina

 

PRODUTO

PRODUÇÃO (t)

Milho
Soja
Arroz
Feijão
Trigo

4.000.000
1.000.000
1.050.000
170.000
200.000

TOTAL

6.420.000

Fonte: EPAGRI/CEPA (Síntese 2008/2009 – Arredondamentos realizados pelo autor)

Quadro 2 – Milho e Soja: Oferta e demanda

 

DISCRIMINAÇÃO

MILHO (mil t)

SOJA (mil t)

1. Consumo
1.1. Humano
1.2. Animal (suínos, aves e outros)
1.3. Indústrias e saídas
1.4. Reserva p/sementes
2. Perdas
3. Necessidade total
4. Produção
5. Déficit

5.270
90
5.030
150

120
5.390
4.000
1.390

1.113
4
7
1.080
22
20
1.133
1.000
133

Fonte: EPAGRI/CEPA (Síntese 2008/2009 – Arredondamentos realizados pelo

Diminuir este déficit é muito importante para a competitividade do agronegócio catarinense, em especial para a sustentabilidade da suinocultura e da avicultura, atividades em que Santa Catarina é o maior exportador nacional e o primeiro e segundo produtor nacional, respectivamente.

A falta de armazéns é um problema estrutural com profundos reflexos na renda dos agricultores. Como os armazéns são insuficientes para receber a produção anualmente colhida, a alternativa adotada, para amenizar o problema, acaba sendo a exportação dos produtos para posterior importação (exemplo do milho). O agricultor se vê obrigado a vender sua produção em plena safra, momento em que os preços se encontram achatados devido à grande oferta. 

No caso da fruticultura, o problema é semelhante, pois a capacidade estática de armazenagem à frio está ao redor de 400 mil toneladas (Fonte: ABPM), enquanto que a produção catarinense de maçã é aproximadamente de 680 mil toneladas (Fonte: Estimativa 2010 IBGE). Nesta situação, o produtor fica ainda mais vulnerável, uma vez que se trata de produto perecível, sendo a safra concentrada em poucos meses e a colocação do produto no mercado durante o ano todo, na quantidade de 40 a 50 toneladas ao mês. Desta forma, o produtor que não possui armazenagem para sua produção, acaba entregando a safra em consignação, sem sequer saber o preço que receberá.

Tanto na área de grãos como de frutas, há necessidade de estimular a realização dos investimentos em armazenagem, promovendo também a organização dos agricultores em condomínios, associações ou cooperativas, visando viabilizá-los de forma coletiva e mais abrangente.

  

 

 

Eng. Agr. Ari Geraldo Neumann
Assessor de Capacitação Profissional CREA-SC
CREA-SC: OO3792-0
ari@crea-sc.org.br
 

 

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