Trilhos do desenvolvimento – Eng. Civil Dagoberto Waydzik

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“Durante décadas o trem esteve presente na vida da população brasileira. Resfolegando pelas paralelas de aço, chegava aos pontos mais longínquos do país com passageiros e cargas. Povoados e grandes cidades nasceram ao redor das estações instaladas. Milhares de passageiros viajaram de trem pelos distantes pontos do território nacional. Agente de integração nacional, o trem ia apitando, quebrando o silêncio de lugares ermos e distantes. Houve o sacrifício de centenas de trabalhadores, pagando até com a vida o desafio da geografia e das epidemias no meio das florestas, além dos altos custos, seria no futuro, tratado com desdém”. (Arnoldo Monteiro Bach – livro: Trens)

É indiscutível que o obstáculo do Brasil não é de tecnologia, mas sim de gestão, ou melhor, de gestão ineficaz da coisa pública.

O que realmente carece em nosso país é um planejamento pensado por pessoal capacitado, vontade política e, competência para a realização do plano, preferentemente ao longo de mais de uma administração. Falta pensamento a longo prazo. Os eleitos são incapazes de enxergar o futuro além da próxima eleição.

Um costume do Oriente Médio aconselha aos ocidentais, focados em sua cultura imediatista, muito cuidado com povos que cultivam tâmaras. Essa gostosa iguaria é fruto de uma palmeira que, apesar de atingir sua maturidade em poucos anos, pode passar dezenas de anos antes de se decidir a produzir frutos. Isso é o exemplo de pensamento a longo prazo.

A privatização, agredida e reprovada na eleição de 2006, deve ser analisada de forma prática e despida de ideais políticos. Como a solução de problemas de planejamento de obras para o modal transporte ferroviário, mesmo que programadas para serem executadas em longo período. Certamente, a iniciativa privada terá condições de atuar com mais celeridade, competência e eficácia do que o poder público.

Vejam a situação que me deparei ao ser contratado para a fiscalização da execução de uma obra pública, com recursos federais, em uma pequena prefeitura de nosso Estado. Fiquei surpreso quando da análise do projeto de fundações (a base de uma construção). No caderno de projetos, enviado pelo governo federal, havia uma solução única em sapatas de concreto. Solução essa que cabe somente a determinados tipos de solos, sendo que na extensão territorial do Brasil existem inúmeras situações que requerem outros tipos de fundações. Resultado: coube ao pequeno município contratar um projeto adequado à situação. Pergunta-se: não seria mais fácil o órgão federal dotar, já na sua origem, tal projeto com pelo mais de uma solução de fundações? Isso é a falta de planejamento, resultando em desperdício de dinheiro público.

Voltando ao transporte ferroviário, no Brasil, em 1970, ocupávamos a 24ª posição nessa modal perante o mundo. Atualmente, com certeza caímos bastante nessa classificação. Por que não voltar a investir nesse setor? É muito “nhe nhem nhém” das autoridades constituídas. Fala-se que o custo de implantação é demasiado elevado e de difícil execução. Entretanto, não se observa o custo benefício. A infra-estrutura deixada pela RFFSA é por demais importante e, certamente, aproveitável.

Não foi difícil a construção do trecho ferroviário de Curitiba a Paranaguá? Até os italianos, na época, diziam que era uma obra irrealizável. Porém, em 1883 a obra foi inaugurada sob o comando do engenheiro João Teixeira Soares.

Outro exemplo: num trecho rodoviário, montanhoso, entre Itália e a França, existem centenas de túneis e viadutos. Seguramente, não foram realizados em apenas uma ou duas administrações, mas sim com planejamento em longo prazo. É a mudança que esperamos de nossos governantes e legisladores.

Porém, a grande mudança exigida pela sociedade não se dará nos gabinetes, plenários, tribunais ou quartéis espalhados pelo país. A grande mudança acontecerá a partir das escolas, das residências, apartamentos, vilas e barracos, refletindo-se nas urnas, para daí, num movimento iniciado nos municípios, chegar aos corredores de Brasília.

É crucial alertar a sociedade sobre a realidade dos programas eleitoreiros, auxiliando o fortalecimento da democracia brasileira, escolhendo candidatos capazes de fazer a administração com real planejamento.

Comandar não significa dominar, mas cumprir um dever. (Sêneca – 4 aC – 65 dC).

– Eng. Civil Dagoberto Waydzik – conselheiro do CREA-PR

 

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