O NÓ DA MOBILIDADE URBANA

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Eng. Civil Severino Soares Silva
severino @essseconsultoria.com

 

O fenômeno da migração das pessoas para as áreas urbanas a partir de meados da década de 1970, associado a outros aspectos relevantes, como o descaso do poder público com o planejamento de médio e longo prazo, o advento do automóvel e o crescimento vertiginoso da frota, colocou essas aglomerações urbanas num labirinto de difícil saída.

O fenômeno não é tipicamente brasileiro, mas, de escala mundial, vivenciado por suas populações, sobretudo para aquelas premiadas com a importação do modelo norte americano e a adoção desenfreada pelo automóvel em detrimento do modal coletivo. Tal opção conduziu as prioridades públicas para se investir cada vez mais em sistemas viários beneficiando o modo individual, reduzindo consequentemente, os investimentos nos sistemas de transporte massivo, deteriorando a sua qualidade, e dificultando os deslocamentos das pessoas.  O problema se nos afigura cada vez mais grave, tendente, portanto, à imobilidade urbana.

Para repassar uma ideia concreta da gravidade dessa questão, veja-se que a frota mundial de automóveis em 2008 registrou em arquivos oficiais de governos 1,0 bilhão de veículos. A partir desse registro, o casal norte americano Daniel Sperling & Déborah Gordon, doutores em transporte urbano, mergulharam numa pesquisa por toda indústria automobilística mundial. Calcularam as taxas de crescimento dos dez anos anteriores a 2008, procuraram saber se as estratégias do setor automobilístico foram concretizadas na década anterior ao ano do registro histórico, quais as expectativas para 2020, qual a capacidade gerencial dos poderes públicos para contemplar soluções de mobilidade urbana compatíveis com o status predominante do automóvel. Analisaram, ainda, o crescimento dos países do BRIC (exceto o Brasil, como que profetizando sobre a nossa atual regressão econômica).

Com isso em mãos projetaram a frota mundial para 2020 admitindo as mesmas taxas de crescimento, adotadas no decênio anterior a 2008, e lançaram o livro que causa elevado impacto nos meios técnicos: TWO BILLIONS CARS. Ou seja, daqui a oito anos as rodovias e os sistemas viários das aglomerações urbanas terão que suportar 2 bilhões de veículos.

Transportando a revelação de Daniel & Débora, adotando-se as suas mesmas premissas, tracemos um paralelo para nossa realidade, sobretudo mediante o comparativo entre população e frota de automóveis.

Vejamos. Na década 2000-2010 o Brasil experimentou um crescimento populacional de 12,32%. As Regiões Sul e Sudeste cresceram igualmente em 10,98%, mas, Santa Catarina teve sua população aumentada em 16,67%. Entretanto, Florianópolis e os municípios do seu aglomerado urbano tiveram suas populações acrescidas, respectivamente, em 23,04% e 24,06%. Ou seja, praticamente o dobro do crescimento brasileiro.

No que tange à frota de veículos naquele mesmo período o agravamento do diagnóstico é latente, sobretudo comparando à taxa populacional. O Brasil aumentou sua frota de 29,7 milhões para 63,7 milhões de veículos (114,39%); Santa Catarina, de 1,47 milhões para 3,36 milhões (129,73%); Florianópolis, de 159,4 mil para 272,2 mil (70,07%), tendo o aglomerado urbano atingido 80,95%. Isso faz com que atualmente a capital catarinense assuma o índice de 642 veículos para cada 1.000 habitantes, cujo patamar coloca-a em segundo lugar no ranking das capitais brasileiras com esse indicador ficando atrás somente de Curitiba (714 veículos/1000 habitantes).

Extrapolando raciocínio e cálculo para Florianópolis e as dez maiores cidades catarinenses chega-se à conclusão de que todas terão frotas dobradas, assim, mais veículos do que população, em 2020. Eis a pergunta: haverá tempo hábil, disposição política, gestão administrativa, reversão na ocupação do solo urbano, pessoal técnico qualificado, recursos financeiros suficientes, para reverter o grave “nó da mobilidade urbana”, que rapidamente se avizinha, com a velocidade que o cenário exige, e proporcionar decentes e confortáveis deslocamentos às respectivas populações?  

 As respostas e conclusões ficam por conta de cada leitor. Quanto às minhas, uma das mais plausíveis, é que ocorrerá o retorno de muitos às origens mais interioranas, ou seja, o êxodo no sentido inverso.         

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