Ele é 100! – Eng. João Eduardo Moritz
Ele é 100!
Engenheiro catarinense João Eduardo Moritz comemora 100 anos
Não é qualquer um que completa um centenário de vida, imagine chegar a essa idade e ainda ter inúmeras conquistas de peso para comemorar. Com 100 anos recém-completados em 14 de julho, sem dúvida o palhocense João Eduardo Moritz faz parte de um grupo seleto. Após formar-se em engenheira elétrica pelo Instituto Mecânico e Elétrico de Itajubá (MG), em 1929, participou da fundação das principais entidades de classe da engenharia: da Associação Catarinense de Engenheiros (ACE) em 1934, do CREA-SC em 1958 e do Sindicato dos Engenheiros de Santa Catarina (SENGE-SC) em 1971. Trabalhou em grandes empresas, como a firma Carlos Hoepcke S.A.e a CEISA-SC. Participou do Conselho Estadual de Educação e também da criação das Escolas de Veterinária em Lages, de Administração de Empresas da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), e da Companhia de Habitação do Estado de Santa Catarina (COHAB). Seu exemplo de vida chegou a servir de inspiração para a poetisa e escritora Leatrice Moellmann, que produziu o livro "João Moritz e o Desenvolvimento de Florianópolis no Século XX".
Em entrevista à Revista CREA-SC, Moritz falou sobre esses anos de vida dignos de nota 100.
Revista CREA-SC – Por que o senhor escolheu ser engenheiro? Como foi sua trajetória profissional?
João Eduardo Moritz – Quando era criança, gostava de olhar as máquinas da confeitaria do meu pai, que ficava na Rua Tiradentes. Ficava encantado, queria saber como funcionava, tinha curiosidade. Também gostava de olhar as rodas das carroças, ficava fascinado com a movimentação daquelas peças, olhava o sistema de funcionamento, queria saber como a roda girava. A tendência foi reforçada pelas amizades do Colégio Catarinense, que foram estudar engenharia eletromecânica, em Itajubá, Minas Gerais. Então, com 17 anos, fui para o Instituto Eletrotécnico e Mecânico de Itajubá, única faculdade no Brasil com esse tipo de ensino na época. Depois de me formar, em 1929, fui para a Alemanha me especializar. Após, voltei e fui trabalhar na Companhia Energia Elétrica Riograndense, em 1933. Em 1938, fui trabalhar na Empresa Força e Luz de Florianópolis, sendo o primeiro engenheiro eletricista, aqui no Estado. Na época, instalei o primeiro gerador a óleo, no Largo Fagundes, para reforçar a iluminação de Florianópolis, que era precária. Essa foi minha primeira grande obra. E não tive problemas durante o exercício da profissão, minha experiência foi ótima, trabalhei até os 90 anos. Tive o prazer de ter trabalhado com essa maravilhosa ciência exata e cartesiana que é a engenharia.
Revista CREA-SC – Quais os momentos mais marcantes ao longo da sua carreira?
Primeiramente destaco minha participação na construção da primeira usina termoelétrica a óleo em Florianópolis, no Largo Fagundes. Minha obra mais importante foi ter participado da construção da Usina Termoelétrica Jorge Lacerda, em Tubarão, hoje operada pela Eletrosul. Havia falta de energia, a usina veio para resolver o problema da indústria local. Outro momento que me marcou foi ter comandado a flutuação e reboque do navio de passageiros e carga Carlos Hoepcke, que pegou fogo no porto de Santos. Além disso, destaco a participação na criação da ACE, do CREA-SC, do SENGE-SC e do primeiro curso de engenheiros de Higiene e Segurança do Trabalho.
Revista CREA-SC – Como surgiu o SENGE-SC? O que mudou na vida dos engenheiros a partir daí?
Já existia o CREA-SC para fiscalizar e regulamentar a profissão de engenheiros, arquitetos agrônomos, e a ACE, que fazia a parte social da engenharia. Faltava uma entidade para defender os engenheiros em termos de salário. Nesse período, início dos anos 70, nasceu em mim um interesse pelo sindicalismo. Consegui fazer as primeiras negociações, primeiros acordos salariais com as empresas estatais. Os engenheiros tinham tratamento individual, o governador ou presidente da empresa decidia o salário, a seu bel prazer. O sindicato passou a lutar por salários iguais. Inicialmente, o SENGE funcionava em minha casa, em uma sala que virou seu escritório. Tínhamos uma mesa, uma máquina de escrever, um telefone, tudo meu. Em 1975, do comando do SENGE, parti para a presidência da FNE (Federação Nacional dos Engenheiros). A principal conquista referente à minha gestão à frente da Federação foi ter aberto sindicatos de engenheiros em todos os estados. Queria fazer com que as conquistas que obtivemos em nível estadual, em termos de negociações salariais, fossem expandidas para os engenheiros de todo o Brasil.
Revista CREA-SC – Como o senhor avalia as conquistas dos engenheiros tanto no campo profissional quanto em suas organizações de classe?
Os engenheiros colaboram muito no desenvolvimento das tecnologias, um trabalho precioso para a humanidade. Em relação às organizações de classe, a partir da criação do SENGE-SC, nós passamos a ter uma pauta de reivindicações da categoria. Isso foi evoluindo muito, principalmente, nas questões sociais, fez com que as empresas passassem a negociar com os engenheiros.
Revista CREA-SC – Quais as perspectivas do seu campo de atuação e qual conselho o senhor daria para o jovem profissional?
São boas. Com o avanço tecnológico, você tem possibilidade de fazer planejamentos e pesquisas melhores. O computador resolve muita coisa, ganhamos tempo com ele. Mas tem que se atualizar, acompanhar as mudanças. O conselho que eu dou é tenha primeiramente disciplina e respeite hierarquia, valores que aprendi com o professor de hidráulica, Lindermein, em Itajubá. Ele dizia também para fazer o que gosta, se não gostar não adianta, tem que fazer com amor. Leia, se profissionalize cada vez mais. Indico livros ligados à pesquisa em relação ao avanço tecnológico.
Revista CREA-SC – Qual o sentimento do senhor ao completar 100 anos? Qual é a receita para chegar a essa idade?
Completar 100 anos é surpreendente, me deixa perplexo. A vida foi maravilhosa comigo. Só em ter podido viver aqui nessa querida ilha, foi muito bom. Tive um apoio da minha família que foi fundamental, meu pai sempre me deu tudo, me manteve na Alemanha para eu me especializar. Eu vivi o desenvolvimento da parte elétrica aqui, que não havia. Só lamento de meus irmãos já terem falecido. Gosto muito de viver, sempre fui muito ativo. Fui governador do Rotary Internacional, sou maçon, ainda participo de diversas entidades empresariais e clubes sociais. A receita para chegar aos 100 anos foi também ter me dedicado ao esporte. Participei de regatas a vela em nível internacional, representando o Brasil. Por gostar muito de esporte, presidi o Figueirense Futebol Clube, fundei o primeiro Iate Clube de Florianópolis…Enfim, fico feliz em ter alcançado essa idade, o que não é fácil!
Bate-Bola
Obra marcante da qual participou/ realização profissional: construção da Usina Termoelétrica Jorge Lacerda, no início da década de 60, em Tubarão.
Obra significativa da engenharia brasileira: Companhia Siderúrgica Nacional.
Por que escolheu ser engenheiro: Desde cedo tinha curiosidade em saber como funcionavam as máquinas da confeitaria do meu pai.
Perspectivas do seu campo de atuação: boas, mas tem que estar sempre atualizado
Conselho ao jovem profissional: tenha disciplina e respeite hierarquia.
Principal avanço tecnológico recente: Nas telecomunicações.
Admiro: Oscar Niemeyer e Gabriel Passos.
Indicação de livro: aqueles ligados à pesquisa em relação ao avanço tecnológico.
Um mal da engenharia: nenhum.
O melhor da engenharia: ser uma ciência exata e cartesiana.




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