Da floresta em pé à economia verde: a engenharia diante dos desafios climáticos debatidos na 81º SOEA
Artigo por Lucas Monteiro | Engenheiro Florestal – Florestal Brasil

Existe uma contradição que acompanha o setor florestal brasileiro há décadas. Somos um país que abriga algumas das maiores riquezas florestais do planeta, formamos profissionais altamente capacitados e desenvolvemos tecnologias reconhecidas internacionalmente. Ainda assim, frequentemente precisamos explicar à sociedade por que as florestas são importantes e por que a engenharia florestal é essencial para o desenvolvimento do país.
Foi com essa reflexão que acompanhei o painel “Florestas no Centro da Solução Climática: Engenharia, Carbono, Restauração e Energia para o Futuro”, realizado na quinta-feira (15), durante o terceiro dia da 81ª Semana Oficial da Engenharia e da Agronomia (SOEA), em Aracaju, Sergipe.
O encontro reuniu profissionais com experiências distintas, mas que compartilham um desafio em comum: demonstrar que as florestas não são apenas parte da discussão ambiental. Elas também fazem parte das soluções econômicas, sociais e tecnológicas de que o Brasil precisa.
Participaram do encontro:
Érica Souza Rossi – Engenheira florestal e coordenadora nacional da Coordenadoria de Câmaras Especializadas de Engenharia Florestal (CCEEF), responsável pela abertura do painel.
Mariane Hatsuno Murakami – Diretora de Clima, Energia e Transição Energética da Secretaria de Estado do Meio Ambiente e da Economia Verde (SEMAE) em Santa Catarina
Eleandro José Brun – Professor da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Engenheiros Florestais (SBEF).
Jefferson Januário Mendes – Professor do Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG).
Mauro da Silva Caldas – Diretor técnico de concessões florestais, com atuação no manejo sustentável de florestas públicas.
Elizangela Bortoluzzi – Engenheira florestal, coordenadora-adjunta da CCEEF e moderadora do painel.
Mais do que os projetos apresentados, o que me chamou a atenção foi perceber como muitos dos caminhos discutidos já são conhecidos por quem trabalha no setor. Sabemos manejar florestas, medir carbono, recuperar áreas degradadas, realizar inventários, monitorar territórios e desenvolver sistemas produtivos. A questão que permanece é por que ainda encontramos tantas dificuldades para transformar esse conhecimento em políticas consistentes, reconhecimento profissional e oportunidades concretas.
O que tornou esse encontro particularmente interessante foi justamente a diversidade de perspectivas. Embora os participantes trabalhem com realidades distintas, suas apresentações convergiram para uma questão que considero central: como transformar o conhecimento técnico acumulado pelo setor florestal em soluções efetivas, economicamente viáveis e reconhecidas pela sociedade?
Floresta não é apenas natureza. É infraestrutura.
A abertura do painel, conduzida pela engenheira florestal Érica Souza Rossi, coordenadora nacional da Coordenadoria de Câmaras Especializadas de Engenharia Florestal (CCEEF), trouxe uma provocação importante sobre a maneira como enxergamos as florestas.

Érica Souza Rossi: Coordenadora Nacional da CCEEF, durante a abertura do painel, destacou o papel estratégico das florestas como infraestrutura climática e a importância da engenharia para o desenvolvimento sustentável.
Érica lembrou que, durante muito tempo, elas foram tratadas como paisagem ou simplesmente como recursos a serem explorados. Hoje, diante da emergência climática, precisamos compreendê-las também como infraestrutura essencial para o funcionamento da sociedade.
Mineração regenerativa: transformar passivos ambientais em soluções
Existe um senso comum de que a mineração é uma atividade inevitavelmente associada à degradação ambiental. E, diante dos impactos históricos do setor, não é difícil entender essa percepção. O problema é quando essa ideia se torna tão consolidada que parece não haver espaço para inovar e aprimorar as técnicas de recuperação ambiental.

Jefferson Januário Mendes: Professor do IFMG, apresentou o conceito de mineração regenerativa e experiências de recuperação de voçorocas utilizando materiais provenientes da atividade mineral.
Foi justamente essa perspectiva que a apresentação do professor Jefferson Januário Mendes, do Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG), me fez questionar ao abordar o conceito de mineração regenerativa. Jefferson apresentou um exemplo desenvolvido em Itabirito, Minas Gerais, município que possui aproximadamente 200 voçorocas, grandes processos erosivos que comprometem o solo e os recursos hídricos.
Em uma das intervenções, cerca de 2 milhões de toneladas de materiais provenientes da mineração foram utilizadas para recompor aproximadamente cinco hectares degradados, com técnicas de estabilização do terreno, drenagem e recuperação ambiental. A proposta é interessante justamente por enfrentar dois problemas simultaneamente: a destinação de materiais da mineração e a recuperação de áreas degradadas.
Evidentemente, nem todo rejeito pode ser utilizado, sendo indispensáveis estudos geotécnicos, geoquímicos e ambientais para garantir a segurança da intervenção. O que mais me chamou a atenção foi a mudança de perspectiva. A mineração regenerativa não elimina os impactos da atividade mineral, mas demonstra que a engenharia pode desenvolver novas maneiras de recuperar os territórios afetados.
Talvez o maior avanço esteja justamente em não aceitar que os métodos de recuperação ambiental já chegaram ao seu limite. Afinal, se a engenharia evolui constantemente para tornar a mineração mais eficiente, por que não aplicar a mesma capacidade de inovação para tornar sua recuperação ambiental cada vez melhor?
Quando uma cidade sofre com enchentes, normalmente discutimos drenagem, canalização e obras de contenção. Quando enfrenta temperaturas extremas, pensamos em energia, climatização e infraestrutura urbana. Entretanto, ainda temos dificuldade em reconhecer que a vegetação, os solos e os ecossistemas também desempenham funções fundamentais na regulação da água, da temperatura e do clima.
Isso não significa que plantar árvores resolverá todos esses problemas. Significa que o planejamento ambiental precisa deixar de ser tratado como uma questão secundária. Plantar uma muda rende uma fotografia. Restaurar um ecossistema exige anos de trabalho, conhecimento técnico, monitoramento e responsabilidade pelos resultados.
E talvez esteja justamente aí uma das maiores dificuldades da engenharia florestal: boa parte do nosso trabalho acontece antes de uma árvore ser plantada e continua muito depois de a foto ser publicada nas redes sociais. O futuro das florestas também depende de uma mudança dentro da própria engenharia

Elizangela Bortoluzzi: Coordenadora-adjunta da CCEEF, mediou o painel sobre o papel das florestas e da engenharia no enfrentamento dos desafios climáticos.
O painel, moderado pela engenheira florestal Elizangela Bortoluzzi, coordenadora-adjunta da CCEEF, mostrou como diferentes especialidades podem contribuir para enfrentar os desafios climáticos.
Durante muito tempo, o setor florestal concentrou esforços em aperfeiçoar suas ferramentas técnicas. Desenvolvemos metodologias, normas, instrumentos de monitoramento e sistemas cada vez mais sofisticados. Tudo isso é necessário. Mas não é suficiente.
Precisamos ocupar espaços de decisão, participar da formulação de políticas públicas, dialogar com outros setores econômicos e, sobretudo, aprender a traduzir nosso conhecimento para uma sociedade que nem sempre compreende o que fazemos.
A engenharia florestal não pode aparecer apenas quando existe uma exigência de licenciamento, a necessidade de um inventário ou a obrigação de recuperar uma área degradada. Ela precisa estar presente quando se discutem infraestrutura, desenvolvimento regional, segurança hídrica, produção de alimentos, energia e estratégias econômicas para o país.
Da mesma forma, não podemos defender a importância das florestas apenas por sua capacidade de armazenar carbono ou gerar receitas. Seu valor ecológico, social e cultural não cabe integralmente em uma planilha. A economia pode ajudar a viabilizar a conservação, mas não deve ser o único argumento para justificá-la. As florestas estão no centro das soluções. Mas estamos preparados para colocá-las lá?





