CREA Summit 2026: inovação, energia e pessoas pautam debates na Sala Tech 1
Programação da manhã e da tarde reuniu especialistas para discutir agronegócio, construção civil, cidades sustentáveis e transição energética, destacando o papel estratégico da engenharia no futuro do país
Por Edinéia Rauta
Fotos Kézia Liberato
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A Sala Tech 1 concentrou, ao longo deste sábado, 28, uma programação marcada por debates sobre inovação e os desafios contemporâneos da engenharia. Pela manhã, temas como o avanço das agtechs e o uso da tecnologia no agronegócio evidenciaram como a transformação digital vem ampliando o papel dos engenheiros na tomada de decisões, aliando produtividade, sustentabilidade e competitividade. Assim como a construção civil esteve em pauta com reflexões sobre eficiência, liderança e retenção de talentos, reforçando a necessidade de modernização do setor e valorização da mão de obra.
À tarde, os debates avançaram para temas ligados às cidades com o uso de tecnologia para tornar os espaços mais seguros e sustentáveis, e à energia, com transição energética e fontes renováveis.
Agtechs e inovação no campo
A transformação digital no campo, aliada à sustentabilidade e à competitividade, esteve no centro da mesa redonda “Conectando o engenheiro ao futuro: agtechs, sustentabilidade e competitividade no agronegócio”. O encontro reuniu lideranças do setor para discutir como a tecnologia vem ampliando o papel dos engenheiros na tomada de decisões no agronegócio.
Participaram do debate Valder Zacarkim, da Fazenda Cheia; Gil Pletsch, da Quiron Digital; Xisto Alves, da JetBov; e Luís Roloff, da Veros. A mediação foi conduzida por Cinthya Zanuzzi, da Aggrotertium.




Os painelistas destacaram o uso crescente de ferramentas tecnológicas, entre elas inteligência artificial, Internet das Coisas (IoT) e computação em nuvem, como aliadas na gestão e na produtividade no campo; o ecossistema de inovação para o desenvolvimento de agtechs também esteve na pauta; a crescente demanda por mão de obra qualificada capaz de operar e interpretar tecnologias no campo.
Para os participantes essa lacuna representa uma oportunidade para engenheiros que desejam atuar no agronegócio, especialmente em áreas ligadas à inovação e à sustentabilidade, sendo estratégica nesse cenário. Segundo eles, é esse profissional que faz a ponte entre a tecnologia e a realidade do campo, garantindo a aplicação prática das soluções. O engenheiro está diretamente conectado aos desafios da produção, seja na avaliação de áreas, no atendimento a requisitos ambientais ou na validação de processos produtivos.
A mesa também abordou o papel das plataformas digitais na integração de dados entre produtores, cooperativas e indústrias, facilitando processos, aumentando a rastreabilidade e fortalecendo a competitividade no mercado global; além de ressaltar que a conexão entre startups, empresas, instituições e profissionais é determinante para o crescimento do setor em Santa Catarina, hoje um dos principais polos de inovação no agronegócio no país.
Transformação na construção civil
A construção civil brasileira vive um momento de transição que exige mais do que crescimento: demanda eficiência, inovação e valorização das pessoas. Essa foi a principal mensagem da palestra do engenheiro Mauro Thiesen ao abordar o tema “Construindo Resultados: Tecnologia, Liderança e Retenção de Pessoas na Construção Civil”.

Thiesen traçou um panorama da evolução do setor nas últimas décadas, destacando os ciclos de crescimento e retração. Segundo ele, o Brasil saiu de um PIB de cerca de R$ 300 bilhões no ano 2000, atingiu aproximadamente R$ 450 bilhões entre 2012 e 2013, impulsionado por grandes eventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas e, posteriormente, enfrentou uma queda significativa, agravada pela pandemia.
Atualmente, o setor apresenta sinais de recuperação, com cerca de 7,7 milhões de pessoas empregadas. No entanto, ainda enfrenta desafios estruturais importantes, como a alta taxa de informalidade, que gira em torno de 50%, e impacta diretamente a organização e a produtividade da cadeia.
A produtividade, aliás, foi um dos pontos centrais da palestra. Apesar dos avanços, especialmente na região Sul, o crescimento ainda é considerado limitado frente às necessidades do mercado. A escassez de mão de obra qualificada também se apresenta como um dos principais gargalos.
Diante desse cenário, a tecnologia surge como elemento essencial para transformar a realidade do setor. Thiesen destacou o uso do BIM (Modelagem da Informação da Construção) como ferramenta indispensável para aumentar a eficiência. “Mais do que uma tendência, o BIM é uma necessidade. Ele permite identificar erros ainda na fase de projeto, reduzir retrabalhos e garantir maior previsibilidade de custos e prazos”, explicou.
Outro aspecto enfatizado foi a importância de projetos bem estruturados desde a concepção, com definições claras e uso de soluções construtivas inteligentes, como modulação e industrialização. Segundo o engenheiro, decisões assertivas nessa fase impactam diretamente nos resultados finais das obras.
Além da inovação tecnológica, a palestra trouxe uma reflexão sobre liderança e gestão de pessoas. A retenção de talentos, a qualificação profissional e a melhoria das condições de trabalho foram apontadas como fatores decisivos para o futuro da construção civil. Temas como segurança no trabalho, práticas ESG (ambientais, sociais e de governança) e a necessidade de superar o modelo excessivamente artesanal do setor também foram abordados.
Encerrando sua fala, Mauro Thiesen destacou o papel humano da engenharia. “Não adianta construir grandes obras se elas não proporcionarem qualidade de vida e bem-estar. A engenharia vai muito além do que os olhos enxergam”, afirmou.
Arborização urbana e inovação
A construção de cidades mais bonitas, seguras e sustentáveis passou pelo debate sobre inovação, tecnologia e conexão entre profissionais durante a mesa redonda “Arborização urbana: cidades mais bonitas e seguras”. O encontro reuniu os especialistas André Luiz Meira de Oliveira, da Tríceras Sistemas Inteligentes, Camila Mayara Gessner, da iFloresta, e Leonardo Barros, da ga.ia, e teve mediação de Thaís Nahas, da Intelink.
Os participantes trouxeram diferentes perspectivas sobre os desafios de transformar ideias em soluções aplicáveis no mercado, especialmente em projetos que impactam diretamente o espaço urbano. Um dos principais pontos discutidos foi a importância da validação de soluções em ambientes reais. Segundo os painelistas, testar tecnologias no contexto onde a vida acontece, especialmente em projetos de infraestrutura urbana, é fundamental para garantir eficiência e aplicabilidade.


Barros destacou aprendizados da sua trajetória no ecossistema de inovação. “A gente precisa gostar da solução, mas não pode ser apaixonado por ela. É fundamental validar se o problema realmente existe e se há mercado. Caso contrário, há risco de investir tempo e recursos em algo que não terá resultado”, afirmou. E ressaltou que o processo de validação passa pelo contato direto com potenciais usuários e pela compreensão das necessidades reais do público. “A vida do empreendedor é feita de erros até que se chegue a um grande acerto. O importante é testar, ajustar e seguir em frente”, completou.
A experiência no ecossistema catarinense de inovação também foi apontada como diferencial para o desenvolvimento de soluções. “O papel das conexões e do networking é fundamental e permitem acesso a oportunidades, parcerias e até suporte técnico e jurídico. Estar inserido em um ambiente de inovação abre portas e acelera o crescimento das ideias. Indico para todos que querem empreender”, sugere Camila.
Oliveira reforçou ainda que a conexão com empresas e instituições também é essencial para viabilizar projetos e ampliar o alcance das tecnologias desenvolvidas. “Um dos desafios é levar soluções ao mercado, especialmente quando se trata de contratação por órgãos públicos. Por isso, começamos com empresas e vamos construindo pontes para atender órgãos públicos”. Outros pontos debatidos foram a importância de estar em movimento seja por meio de eventos, capacitações ou conexões; a estruturação da estratégia comercial; e a integração entre engenharia, tecnologia e colaboração.
Transição energética e inovação
A primeira mesa redonda da tarde trouxe ao centro do debate um dos temas mais estratégicos da atualidade: “O Futuro da Energia”. Diogo Seixas, da EV PV; Silvio Renato Del Boni, da SCGÁS; e Giovane Rosa, da Gás Orgânico discutiram os caminhos da transição energética, os avanços tecnológicos e o papel da engenharia na construção de uma matriz mais limpa, eficiente e sustentável.

Foi reforçada a ideia que a transição energética não acontece de forma espontânea, ela é projetada, desenvolvida e implementada por engenheiros. A diversificação da matriz energética, com destaque para o uso de fontes renováveis e o aproveitamento de resíduos, foi tratada por Del Boni ao apresentar iniciativas da SCGÁS voltadas à produção de biometano a partir de dejetos, especialmente da suinocultura, atividade forte em Santa Catarina.
“Estamos transformando um passivo ambiental em energia. O biometano pode ser injetado na rede e utilizado por indústrias, comércios e residências, contribuindo para uma matriz mais sustentável e eficiente”, explicou. Segundo ele, além de reduzir impactos ambientais, a solução gera valor econômico e fortalece a cadeia produtiva.
A mobilidade também entrou em pauta, com a discussão sobre o uso do gás natural e do biometano como alternativas ao diesel no transporte rodoviário. Projetos em andamento no estado já preveem a expansão de pontos de abastecimento, criando uma infraestrutura capaz de viabilizar essa transição.
Outro destaque foi o avanço das tecnologias de armazenamento de energia. Seixas apresentou o papel dos sistemas de baterias (BESS – Battery Energy Storage Systems) na estabilização do sistema elétrico e na otimização do consumo. “Esses sistemas permitem armazenar energia em momentos de menor custo e utilizá-la quando há maior demanda, trazendo eficiência e segurança energética”, afirmou. Ele também ressaltou a aplicação da inteligência artificial na gestão desses sistemas, permitindo prever padrões de consumo, otimizar o uso da energia e até antecipar demandas relacionadas a eventos climáticos.
Já Giovane Rosa abordou o futuro das energias renováveis sob a perspectiva da indústria 4.0, destacando o papel da tecnologia na melhoria da qualidade de vida e na construção de soluções mais sustentáveis. Entre as tendências, citou o crescimento do uso do biogás, do hidrogênio e de combustíveis sustentáveis, inclusive com potencial aplicação na aviação. “A transição energética exige segurança, confiabilidade e integração de diferentes fontes. Temos um grande potencial, especialmente no uso de resíduos, que ainda é pouco explorado no país”, pontuou.
Ao longo do debate, os especialistas reforçaram que o Brasil possui uma posição privilegiada, com um sistema energético integrado e grande potencial para expansão de fontes renováveis. No entanto, destacaram que o avanço depende de investimentos em tecnologia, infraestrutura e qualificação profissional.
Planejamento e tecnologia aliadas da arborização urbana
A última mesa redonda foi sobre “Engenharia e Arborização Urbana: tecnologia, planejamento e gestão de risco nas cidades” e reuniu Charles Coelho, da Arboran; Ciro Costa, da Neofloresta; com mediação de Cadorin, do SEAGRO.
O painel trouxe reflexões sobre os desafios da arborização urbana em um cenário em que cerca de 87% da população vive em áreas urbanas. Os especialistas destacaram que a gestão das árvores nas cidades deve ser tratada como infraestrutura essencial, exigindo planejamento técnico, monitoramento contínuo e tomada de decisão baseada em dados. “É preciso ter diagnósticos precisos e conhecer a realidade local. A arborização não pode ser conduzida apenas por percepção, ela exige critérios técnicos e engenharia”, ressaltou Charles Coelho.



Entre os principais pontos abordados esteve a necessidade de superar a visão de que cavidades ou sinais de envelhecimento das árvores justificam automaticamente o corte. Segundo os especialistas, a análise estrutural e o uso de tecnologias, como tomografia e sensores, permitem avaliar com precisão a condição das árvores e orientar decisões mais assertivas, como manejo, poda ou intervenções preventivas.
A tecnologia, aliás, foi destacada como aliada fundamental na gestão de risco. Ferramentas de monitoramento, softwares de análise e até soluções com drones vêm sendo utilizadas para mapear áreas urbanas, avaliar a saúde das árvores e reduzir custos operacionais. No entanto, os participantes também alertaram para os desafios de implementação, especialmente no setor público, como custos de investimento e gestão de dados.
Ciro Costa reforçou que a arborização deve ser compreendida como política pública estruturante. “Não se trata apenas de estética. As árvores são infraestrutura urbana, essenciais para reduzir temperatura, melhorar a qualidade de vida e mitigar os impactos das mudanças climáticas”, afirmou. Ele também destacou a importância da responsabilidade técnica e da atuação de profissionais qualificados na elaboração e execução de planos de arborização.
Outro ponto de destaque foi a necessidade de planejamento de longo prazo, com definição de metas e integração entre diferentes áreas da gestão pública. A escolha adequada de espécies, o manejo correto e o monitoramento contínuo foram apontados como fatores decisivos para evitar conflitos urbanos e garantir benefícios ambientais.
Ao longo do debate, os especialistas reforçaram que o futuro das cidades passa pela valorização da infraestrutura verde, com a engenharia desempenhando papel central na criação de soluções inovadoras e sustentáveis. A mesa encerrou o dia destacando que arborizar com qualidade não é apenas plantar mais árvores, mas planejar, cuidar e gerir com responsabilidade técnica.





