Água: prevenção como alternativa à crise

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Eng. Civil e Seg. Trab. Carlos Alberto Kita Xavier
Presidente do CREA-SC

A crise de água que atinge São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e outros estados, felizmente está distante da realidade Catarinense. Enquanto São Paulo vivencia a maior seca dos últimos 84 anos, o estado registrou um volume intenso de chuvas correspondente à média dos anos anteriores.

Isso não quer dizer que o atual contexto não aponte para a necessidade do debate sobre o tema, visando o planejamento de ações que possam evitar futuros problemas. A falta de reservatórios e o desperdício nos processos de tratamento e distribuição podem colocar o estado em alerta num período de crise.

Por isso, é fundamental aprimorar os processos de armazenamento, tratamento e transporte de água no estado. Além disso, é preciso estar atento à preservação dos rios e nascentes, sobretudo nos grandes centros populacionais que dependem da captação em locais afastados, cujo custo se torna mais elevado.

A captação em Santa Catarina é descentralizada e não depende de fontes isoladas, o que diminui problemas de uma seca localizada. As pequenas captações abastecem com segurança as populações locais e diminuem o custo dos serviços.

Mas nem sempre há água no local em que se consome. Por isso, os investimentos visando garantir água a todos, deveriam se concentrar nas regiões que precisam deslocar a captação para locais mais afastados.

Em Florianópolis, por exemplo, a primeira adutora abastecia o Centro com água da Lagoa da Conceição. Atualmente, esta quantidade seria insuficiente para abastecer a própria Lagoa.

A capital, assim como outras cidades do litoral catarinense, enfrenta problemas de abastecimento durante o verão, quando a população chega a triplicar. Situação que compromete significativamente uma das principais atividades econômicas do estado: o turismo.

Há tempos, o CREA-SC tem alertado sobre o avanço do mar na costa Sul da Ilha e sobre a ameaça da potabilidade da Lagoa do Peri, que abastece cerca de 150 mil pessoas. A Casan capta cerca de 200 litros por segundo para abastecer a população das costas leste e sul. As ressacas ocorridas nos últimos anos têm diminuído a distância entre a praia e a Lagoa. Há ainda a possibilidade de salinização da água doce através do subsolo, caso ocorra uma diminuição do nível e da pressão do manancial, sem a devida reposição.

Entendo que a maior preocupação é com a poluição dos mananciais. Santa Catarina tem hoje menos de 20% de coleta e tratamento de esgoto, um número contraditório para um estado que está entre os mais desenvolvidos do país. O uso de agrotóxicos nas plantações, um dos grandes focos da fiscalização do CREA-SC, sem a devida orientação técnica profissional, contribui para contaminar os mananciais.

Se de um lado, o novo Código Florestal viabilizou negócios nas propriedades rurais do estado, de outro permitiu a diminuição das faixas de mata ciliar, tão importantes para a preservação dos rios, córregos e nascentes. Sem falar de um problema cultural que é o desperdício por parte da população e os desperdícios nos processos de captação e distribuição.

Assim, é preciso avaliar as demandas futuras e garantir a manutenção dos mananciais catarinenses. O estado possui poucos reservatórios e a maioria das hidrelétricas são de pequeno porte (PCHs), com no máximo 3 km², que funcionam com vazão imediata, ou seja, conforme o nível do rio diminui, a captação e a produção elétrica também são comprometidos.

Uma coisa é certa. Situações de crise trazem não só mudanças comportamentais como também a mobilização de diferentes setores. Fica evidente a importância da participação dos profissionais do Sistema no sentido de prevenir uma possível crise no estado, como a que ocorre na região Sudeste.

Não tenho dúvidas, que as soluções para a crise da água que atinge o país envolvem em grande parte as atividades e o conhecimento técnico-científico de engenheiros, geólogos, geógrafos, agrônomos e meteorologistas. É dever e compromisso dos profissionais da área tecnológica participar ativamente deste processo.

 

 
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