Retomar os Trilhos
Eng. Eletric. Nahor Cardozo Junior – cardozojunior.nahor@gmail.com
O Brasil está fora dos trilhos. Não no sentido figurado, pensando na economia, na política e na moral da nação, mas no sentido literal. Este é o pensamento da ABEE-SC (Ass. Br. Eng. Eletricistas – Seção de S. Catarina) que, em parceria com o CREA-SC, promoveu em 4/4/2016, o Seminário “Retomando os Trilhos – Uma Discussão Contemporânea”. Esta constatação surge a partir da comparação com outros países, considerando o tamanho do país e o da sua rede ferroviária. O Brasil, com seus 8.516.000 km², tem 28.137 km de trilhos (estão inclusos os trilhos de metrôs, VLTs e recentes monotrilhos), mesma quantidade praticamente que o Japão, cujo território é 23 vezes menor. Neste mesmo padrão, temos que os EUA possuem 14 vezes mais ferrovias e a Argentina (com quem gostamos muito de disputar tudo) possui quase 4,5 vezes mais ferrovias que o Brasil.
Se olharmos também as referências históricas, vemos que desde a inauguração da nossa primeira ferrovia, em 30/04/1854, com seus 14,5 km de extensão, o país evoluiu e atingiu o seu ápice em 1948, quando atingiu a marca de 35.623 km de trilhos. Desde então, regrediu, desativando trechos e retirando trilhos, até atingir os atuais 28 mil quilômetros, já incluindo os novos investimentos (metrôs, por exemplo). Mesmo no aspecto histórico, em comparação, a Argentina de Maradona (mas Pelé é melhor!) teve seu auge ferroviário nos 47.000 km de trilhos e também regrediu a partir dos anos 90, alcançando o pior nível quantitativo com a extensão de 40.561 km de linhas férreas, o que ainda é 1,44 vezes mais em quilometragem que o sistema brasileiro.
Isso é importante porque afeta o “Custo Brasil”; porque todo brasileiro paga, nos produtos e serviços que usa no dia a dia, o preço da decisão pelo quase abandono de um modal de transporte valorizado no resto do mundo, até mesmo na América do Norte, sede mor do Império do Automóvel. O cidadão paga com sua saúde, inclusive, como se verá adiante.
É necessário deixar claro que não existe modal perfeito, absoluto e onipotente. A intermodalidade é imprescindível. A distorção hoje existente surgiu pela perda deste foco, quando Juscelino Kubitscheck, na sua meta de avançar “50 anos em 5”, aceitou como regra que em 6 meses era possível construir 500 km de estradas de terra, mas para o mesmo tanto de via férrea, necessitaria 5 anos (hoje são 3). Importava era fazer e inaugurar, não interessando a velocidade da degradação de uma e de outra obra, os custos de manutenção, a capacidade de transporte… Chegamos, assim, à “era do caminhão”, com suas vantagens e (muitas) desvantagens. O transporte rodoviário perde feio em economia de escala (30 ton./carreta contra 3.000 ton./trem), tem pior eficiência energética, consome mais combustível e polui mais o meio ambiente. Os caminhões são a principal causa de desgaste das rodovias e todos os cidadãos arcam com esse custo via impostos. O prejuízo é socializado. Já a manutenção das ferrovias é de responsabilidade da concessionária.
Há, ainda, os custos sociais decorrentes de acidentes com mortes e mutilações, despesas hospitalares, tratamentos de saúde e reabilitações profissionais das vítimas, sem falar na aposentadoria precoce por invalidez, em decorrência dos acidentes rodoviários provocados por caminhões (excesso de veículos nas rodovias, veículos com excesso de carga, motoristas cansados ou drogados, imprudência…). A matriz adotada é inconveniente, cara, perigosa. O Brasil está fora dos trilhos.




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