Melhores condições de trabalho, melhor desempenho

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Marcelo Pereira da Silva, Dr.

Departamento de Engenharia de Produção e Transportes

Universidade Federal do Rio Grande do Sul

ergocelo@gmail.com

 

 

 

 

 

 

O desempenho humano no trabalho é um tópico bastante abordado na pesquisa científica e nos meios técnicos. Não possui exclusividade de profissão ou de área de conhecimento, já que é tratado com diferentes enfoques. Estudos sobre administração de empresas indicam que o bom desempenho das pessoas é criado a partir de estratégias de gestão. Na saúde ocupacional, aponta-se para uma alimentação balanceada e para um baixo risco de desenvolvimento de distúrbios psicofisiológicos como prerrogativa para que trabalhadores mostrem resultados positivos. Na arquitetura e no design uma das principais preocupações é o ambiente de trabalho e suas características de enfoque na tarefa e conforto. Cada área aborda o problema de formas distintas e propõe soluções para o mundo corporativo.

Entretanto, a atenção aos detalhes das condições de trabalho humano é dada pela engenharia, especialmente através da Ergonomia. Seus objetivos, equivalentes em importância, são o bem estar do trabalho e o desempenho geral do sistema. Ou seja, o desempenho de um sistema depende também do desempenho de cada trabalhador nele inserido. Logo, não se pode ignorar a forma com que o contexto de trabalho foi projetado ao buscar esses dois objetivos.

Em uma importante revisão de estudos aplicados (Neumann & Dul, 2010) algumas relações entre a melhoria nas condições de trabalho e resultados operacionais foram apresentadas. Dentre elas, estudos de caso demonstrando resultados lose-lose, ou seja, onde más condições de trabalho geram baixa qualidade de processo. Outros tipos de impacto win-win entre a boa ergonomia e a boa produtividade também são representados por números expressivos. Por fim, dados afirmando que a implantação de novas tecnologias (sistemas lean e de TI) funciona melhor quando o novo sistema possui a ergonomia melhor projetada. Além dos resultados quantitativos, também são mencionados benefícios intangíveis como a melhor comunicação, melhora da moral dos trabalhadores e melhores relações interpessoais.

Não é difícil entender porque más condições de trabalho impedem um desempenho satisfatório. Trata-se de tarefas extenuantes ou mal planejadas, que além de gerar fadiga desnecessária não contribuem para o segundo objetivo da ergonomia. Pense no seu posto de trabalho. Normalmente só atingimos o que chamamos de bom desempenho quando temos boas condições de trabalho ou quando estamos sofrendo pressão por resultados. A diferença é que a segunda opção não atinge o longo prazo sem gerar efeitos indesejáveis para o trabalhador e para o sistema. Mas tem mais barreiras nesse caminho.

Parece que quem deveria se preocupar com as condições de trabalho nas empresas possui ideia equivocadas sobre esta relação. Tanto na literatura científica como na prática empresarial há simplificações erradas sobre características do comportamento humano. Por exemplo, sistemas de trabalho são construídos considerando que os trabalhadores estão constantemente descansados e que possuem comportamentos previsíveis. Sabemos que é exatamente o oposto, e há autores que consideram o ser humano como o fator com maior complexidade dentro de um sistema.

Se quisermos melhor desempenho do trabalhador precisamos entender melhor tudo o que se passa em sua relação com o trabalho, e, considerando esse conhecimento, desenvolver melhores sistemas produtivos.

 

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