O custo operacional do trabalho pesado

Marcelo Pereira da Silva, Dr.
Departamento de Engenharia de Produção e Transportes
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
ergocelo@gmail.com
Trabalho pesado, trabalho braçal, trabalho forçado e condição desumana são sinônimos de um problema bem antigo. Trabalhadores egípcios e gregos que construíram estruturas que ainda estão de pé (que provavelmente ainda estarão nos próximos séculos) provaram que é possível movimentar pedras e outros materiais pesados sem o uso de motores. Com uma boa dose de inteligência, noções de física aplicada e aparatos de madeira e cordas tudo foi possível. O que se vê aqui não é apenas uma tecnologia para substituir o esforço humano no trabalho pesado, mas o despertar de uma vontade de repensar tarefas que se tornaram aceitas pela rotina do contexto.
Após a revolução industrial os afastamentos por doenças ocupacionais e acidentes se tornaram frequentes. Problemas como dores incapacitantes na coluna e nos braços emergiam de populações de trabalhadores da indústria. Ainda hoje existem ambientes onde o trabalho pesado é totalmente aceito e está inserido na cultura organizacional como a construção civil, a indústria madeireira, o setor portuário, entre outros. Segundo pesquisas de órgãos como a Organização Internacional do Trabalho e a Organização Mundial da Saúde esses ainda são problemas relevantes e com ares de epidemia.
Quem trabalha com saúde e segurança do trabalho sabe que não há fixação de limites de peso para transporte manual de cargas. Esse limite varia conforme a distância entre a carga e o corpo do trabalhador, suas alturas de pega e deposição, ângulo de giro, frequência de movimentos e tipo de pega. Tais critérios foram estabelecidos pelo centro de pesquisa americano “The National Institute of Occupational Safety and Health (NIOSH)”, que desenvolveram a popular equação de levantamento de carga de NIOSH. Diversos países adotam essa lógica de cálculo de carga para trabalho humano, inclusive o Brasil, através de normas do Ministério do Trabalho e Emprego.
As consequências do trabalho pesado sobre a saúde psicofisiológica do trabalhador reduzem o seu desempenho a ponto de erros e acidentes se tornarem rotina. Se considerarmos que condições de trabalho desfavoráveis normalmente atingem um grande número de pessoas dentro de uma empresa, é lógico pensar que esse grupo de trabalhadores vive aquém do seu potencial papel dentro de um sistema produtivo. Muito se fala em fadiga ou cansaço quando a palavra mais correta seria exaustão, dado que a condição considerada normal não respeita os mais básicos limites de conforto e bem-estar humano.
Em termos de fisiologia ocupacional, há diversas pesquisas sobre os custos fisiológicos humanos que sistemas produtivos mal adaptados geram. Entretanto os custos operacionais não parecem ser tão evidentes. Indicadores indesejáveis como o absenteísmo, a rotatividade, os afastamentos e as perdas financeiras decorrentes desses e de outros problemas correlatos estão fortemente relacionados ao trabalho pesado.
Em resumo, sabemos que o trabalho pesado é uma situação grave e antiga. Sabemos também que os problemas dele decorrentes possuem um impacto negativo em sistemas produtivos, inclusive em termos de perdas financeiras. Já estabelecemos boas referências técnicas para analisar diferentes situações e desenvolver trabalhos menos pesados. Mesmo assim nossa sociedade ainda compra, permite e quase incentiva um tipo de trabalho que já não deveria pertencer a esse século.
Assim como uma máquina desregulada que produz peças fora do padrão de qualidade o trabalhador extenuado contribui para um maior custo operacional. A diferença é que a máquina desregulada não produz com qualidade por um salário mais alto ou por uma ameaça de demissão. Só funciona se resolver o problema.






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