Os desafios da competitividade industrial em 2015

Guilherme Luz Tortorella
Departamento de Engenharia de Produção e Sistemas
Universidade Federal de Santa Catarina
Além dos usuais entraves e dificuldades na gestão de um negócio, o ano de 2015 inicia com diversos desafios à frente para a indústria brasileira de bens de consumo e serviços. Com perspectiva de crescimento econômico pessimista, altas taxas de juros, instabilidade política, crises energéticas, dentre outros fatores, este cenário proporciona especial atenção à competitividade interna de modo a garantir a sobrevivência dos negócios neste contexto.
Um estudo apresentado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) reforça a necessidade de busca por competitividade. Neste, o Brasil ficou em penúltimo lugar em um ranking de competitividade que inclui 15 países. A posição do país no ranking, referente a 2014, é a mesma vista nos dois anos anteriores. A economia brasileira ficou somente à frente da Argentina no ano passado. O estudo é realizado pela CNI desde 2010. Desde 2012, o Brasil está na penúltima colocação no ranking. Além do Brasil e da Argentina, o levantamento também considerou os seguintes países: Colômbia, México, Polônia, Turquia, Índia, Rússia, África do Sul, Chile, China, Espanha, Austrália, Coreia do Sul e Canadá. De acordo com a entidade, essas nações são as "principais concorrentes" do Brasil. Para fazer o ranking, a CNI considerou os seguintes fatores: disponibilidade e custo da mão de obra, disponibilidade e custo do capital, infraestrutura e logística, peso dos impostos, ambiente macro e microeconômico, educação, tecnologia e inovação.
Apesar da atual posição competitiva da indústria brasileira, o estado de Santa Catarina mostra uma leve tendência a contradizer tal situação. O terceiro ranking de Competitividade dos Estados Brasileiros elaborado pela consultora britânica EIU (Economist Intelligence Unit) em parceira com o brasileiro CLP (Centro de Liderança Pública) registrou o crescimento de 6º para 5º estado mais competitivo brasileiro, atrás apenas de São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná e Rio Grande do Sul. Este ranking avalia os Estados segundo o ambiente político, econômico, infraestrutura, regulação, até recursos humanos, criminalidade, inovação e sustentabilidade. Neste, o Estado mostrou um aumento importante do tamanho do mercado consumidor, além de alta nos incentivos para estrangeiros e gastos com pesquisa.
Contudo, esta relativa melhora para o panorama industrial do estado de Santa Catarina não permite acomodação perante o cenário de 2015. Segundo levantamento realizado pela Federação das Indústrias de Santa Catarina (FIESC), a indústria catarinense encerrou já no ano de 2014 com uma redução de 1,2% nas vendas, na comparação com 2013. Além disso, as exportações catarinenses iniciaram o ano de 2015 em baixa, registrando queda de 6,7% em relação ao mesmo período de 2014. Tais dados denotam a fragilidade existente na indústria catarinense perante o momento atual.
Em um momento cercado de incertezas externas, tem-se a oportunidade de reavaliar o “modus operandi” das empresas, de modo a revigorá-las e torná-las mais robustas enquanto negócios. Para tal, a readequação de suas estruturas, otimização de seus processos produtivos e administrativos, revisão de suas estratégias e diretrizes internas, são algumas das formas de se repensar o sistema produtivo da empresa, blindando-se ainda mais contra os fatores externos. A revisão e aprimoramento das práticas de Gestão Operacional permite às empresas a adaptação aos novos requisitos e exigências, sejam elas ocasionadas por parte mercado consumidor ou pelo cenário político-econômico. Indústrias inseridas em mercados altamente competitivos, tais como o automobilístico, por exemplo, têm, por característica do próprio tipo de negócio, a necessidade de trabalhar com altos níveis de desempenho operacional e qualidade. Tal necessidade torna-se elemento motivacional para aprimoramento de práticas e técnicas gerenciais, à medida que são elas que garantem a eficiência e eficácia do sistema produtivo. Contudo, esta realidade não é presente em todos os segmentos, o que ocasiona um acomodamento gerencial e torna-se um entrave para a inovação e melhoria de competitividade.
Práticas e princípios de trabalho como os empregados em Sistemas Enxutos, por exemplo, citam a melhoria contínua como uma eterna “tirania” de melhoramento dos processos. Isto é, indústrias que desejam firmar-se em uma posição de destaque no cenário nacional e internacional devem necessariamente manter-se constantemente insatisfeitas com o status quo. O autor Michael Ballé, renomado pesquisador nas áreas de Aprendizado Organizacional e Gestão do Conhecimento, afirma que a maior dificuldade para se gerar a mudança organizacional ocorre em ambientes onde se têm um relativo sucesso, mesmo que este seja pontual e temporário. O autor coloca ainda que, para estes ambientes onde não se percebe uma situação de crise, a gerência deve gerar uma. A criação de um senso de urgência é o que, segundo o autor, possibilita o desequilíbrio e consequente movimentação das forças internas da organização de modo a desafiar o status quo.
Obviamente, uma crise político-econômica nacional não é a maneira mais saudável de se estabelecer o senso de urgência e a necessidade de aprimoramento das práticas de Gestão Operacional na busca por competitividade. Contudo, se por um lado a iminente recessão evita que cresçamos enquanto economia mundial, provocando insegurança e atrasando a construção de nossa solidez econômica; por outro, em níveis relativamente saudáveis (se é que pode se utilizar esta palavra para tal contexto!), pode possibilitar o estabelecimento de um elemento motivacional necessário sacudir as “bases estruturais” de gestão da indústria brasileira de modo a removê-los da situação de conforto em rumo à melhoria e aprimoramento de seus sistemas produtivos. Assim, tem-se em 2015 um momento é de grandes transformações sim, mas também de grandes das oportunidades.






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