A engenharia humana da indústria

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Marcelo Pereira da Silva, Dr.
Departamento de Engenharia de Produção e Transportes
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
ergocelo@gmail.com

Quando João começou a sentir dores e formigamento em seu braço direito não deu muita bola e continuou trabalhando em seu posto. Considerando o difícil setor onde trabalhava achou que aquilo não era grave ou importante o suficiente a ponto de avisar alguém. Ele percebeu que depois de um tempo sua produção estava mais baixa que o normal e que a máquina que alimentava parecia ociosa em alguns momentos. João era um bom trabalhador e não fazia corpo mole, mas nesse caso estava se sentindo um verdadeiro gargalo de processo.

Finalmente tomou a difícil decisão de buscar ajuda e acabou sendo afastado pelo médico da empresa, sendo rapidamente substituído por outro trabalhador mais jovem, menos experiente e com menos comprometimento. O afastamento de João durou seis meses e foi tempo suficiente para sua máquina passar pela mão de dez trabalhadores cada vez menos experientes, com menos comprometimento e que almejavam o auxílio desemprego como meta profissional.

Esta história se repete diariamente em nossas indústrias e não é difícil entender o seu impacto incrivelmente negativo em grandes e pequenas empresas que enfrentam forte concorrência, instabilidade econômica e batalhas trabalhistas. As origens de problemas como esse sempre foram divulgadas por profissionais que estudam o papel do ser humano no sistema produtivo, principalmente por aquele pessoal da saúde, segurança e ergonomia.

A maior barreira nesse campo é que esse pessoal não está de fato inserido no sistema produtivo. Os problemas de saúde e segurança normalmente são considerados problemas do setor de saúde e segurança, não da engenharia. E essa cultura está tão arraigada nas nossas indústrias que afeta o entendimento de todos os envolvidos, mesmo daqueles que sofrem mais diretamente com ela.

O paradigma aqui é que a indústria parece se esforçar para fazer seus sistemas funcionarem apesar de seus operadores. Em geral não se pensa no ser humano como parte importante do sistema e, sempre que possível, a automatização de processos é vista como uma solução ideal. Um exemplo disso é que normalmente se leva muito a sério os critérios de instalação de uma máquina como sua exposição térmica, condições de alimentação elétrica, layout, estrutura e logística. Já para a inclusão de trabalhadores no mesmo sistema os critérios se resumem a tentar atender minimamente as partes da lei trabalhista que estão na moda e evitar o custo de treinamento operacional e de segurança.

Apesar de não ser novo, parece haver pouco conhecimento sobre esse cenário dentre gestores e tomadores de decisão. Na pesquisa científica essa perspectiva de melhoria operacional a partir de estudos do sistema produtivo versus sua adaptação ao ser humano se torna cada vez mais robusta. Existem revisões publicadas que apontam resultados positivos convergentes entre a ergonomia e o desempenho de sistemas produtivos. Além de obter bons indicadores comportamentais, de saúde, de segurança, de carga de trabalho e de qualidade de vida no trabalho os mesmos estudos apresentam ganhos em qualidade, produtividade, desempenho com novas tecnologias, comunicação e cooperação entre equipes.

A engenharia industrial precisa buscar a otimização das configurações de sistemas produtivos considerando também sua complexa relação com as características psicofisiológicas do ser humano (como limitações e habilidades), pois o seu maior impacto no desempenho operacional parece ser de longo prazo. Talvez assim o João possa retornar recuperado para uma empresa que aproveite o melhor dele com inteligência e visão socioeconômica.

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