Artigo: Carta aos presidentes eleitos dos Creas
Eng. Civil Ênio Padilha
Meu caro Presidente eleito do Crea.
Uma campanha que deveria ter durado três meses acabou, por força dessa pandemia, se arrastando por sete meses.
Para quem era presidente e se licenciou para poder participar da campanha, houve uma perda de sete dos 36 meses do mandato (quase 20%. Não é pouco!). Para os demais o problema não foi muito menor. O investimento de tempo, recursos financeiros e, principalmente, energia foi muito maior do que deveria ter sido.
Foi muito desgastante. Finalmente acabou e você venceu. Parabéns.
Mas não pense que os próximos três anos serão fáceis. Os desafios são imensos. E alguns problemas crônicos do nosso sistema profissional estarão esperando por você no início de janeiro. O enfrentamento desses problemas irá exigir liderança, competência política e estratégia. Espero que a senhora ou o senhor esteja preparado?
Pelo que eu pude acompanhar na maioria dos Creas as vitórias foram apertadas, por uma margem muito estreita. Isso é uma clara decorrência do tempo de duração da campanha que provocou muitas mudanças de comportamento em relação às campanhas tradicionais.
Mas é também um resultado da mudança no perfil dos profissionais eleitores. A faixa etária média da Engenharia, no Brasil caiu muito nesses últimos 15 anos. A quantidade de profissionais com menos de 30 anos se aproxima dos 50%. É muita gente. Esse povo precisa ser ouvido. Suas demandas precisam ser identificadas e atendidas.
Um dos maiores desafios do nosso sistema Confea/Crea e tornar-se menos burocrático e desamarrado. Nossos jovens profissionais estão acostumados às Fintecs (os Nubanks da vida). Querem tudo simplificado e sem burocracias desnecessárias. E, atenção: ELES TÊM RAZÃO. Quem demorar muito para entender isso vai ficar pelo caminho (alguns já ficaram nessa eleição que acabou de acontecer).
Os processos de decisão precisam ser simplificados. Os trabalhos precisam ser interligados por ERPs* eficientes. Os Creas precisam ser preparados para a terceira década do Século XXI.
Outra coisa importante: como já foi dito lá no primeiro parágrafo, praticamente não aconteceram vitórias por goleada. Todos os eleitos deixaram para trás adversários com muitos votos e, consequentemente, muitos seguidores.
Uma eleição cria, em torno do candidato, uma bolha de otimismo e de apoio. Nesta bolha ninguém (a não ser que seja muito amigo) irá apontar o dedo e dizer que você está errado. Isso é um perigo. Você não pode levar essa bolha para dentro do Crea. Lembre-se da frase de Santo Agostinho: “Prefiro os que me criticam, porque me corrigem aos que me elogiam, porque me corrompem.”
Neste momento é preciso entender que a eleição já passou. A campanha precisa ser deixada pra trás. A primeira e mais importante missão é unificar a Engenharia e a Agronomia do seu estado em torno de projetos que sejam importantes para todos. Concepção e implementação de uma estratégia inteligente será essencial, especialmente nos primeiros meses.
Você não pode cair na tentação de administrar apenas para o grupo que o elegeu. Isso foi a desgraça de muitos governadores eleitos em 2018 e que agora estão enfrentando grandes dificuldades.
Será necessário negociar. E negociar é fazer concessões. Lembre-se disso.





