Artigo Opinião: A inexorável travessia

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O fato é que um novo tempo então surgiu!

 

Pioneiros, empreendedores, atrevidos, audaciosos, os primeiros viram ou criaram um caminho e, ao alardear os mais valorizados apelos contemporâneos, passaram a contabilizar seguidores.

 

Passado algum tempo, por atração, conveniência, modismo, imposição ou necessidade, progressivamente a trupe foi se avolumando. Alguns desconfiados, muitos contrariados, outros tantos carregados. Os irredutíveis, percebendo que não sobreviveriam, viram-se obrigados a integrar a procissão.

 

A propaganda dizia que o caminho era livre, de fácil acesso, pavimentado, em declive, largo e repleto de conveniência. Isso levou à adesão.

 

O fato é que a debandada cresceu e se instalou!

 

Desconhecia-se que o caminho não era inteiramente como havia sido vendido. Era só de ida, de mão única, sem retorno.

 

O andar desenfreado fez constatar que era difícil parar ou diminuir a velocidade. Era impossível voltar, nem havia saídas à direita ou esquerda. Restava apenas andar para sobreviver.

O fato é que só para a frente se podia ir!

 

Por óbvio, nem só de declives se faz um trajeto. Fatalmente, ele chegaria pelo menos a uma planície. E foi o que aconteceu.

 

Em paralelo, numa das margens do caminho, corria um rio ainda despercebido da maioria em razão da euforia do ir ligeiro. Eis que, de súbito, ele se torna transversal. E, mais do que isso, a travessia se torna vital.

 

Pois bem, diante da tarefa inevitável, pelo menos uma indagação se instala: Como o rio mudou seu curso tão bruscamente? Uns atribuem à vontade de Deus, outros ao relevo, à natureza e alguns à obra do próprio homem, que, por meio de poucos de seus pares, proposital ou interesseiramente, cavou para que o leito fosse desviado depois de já estar em solo firme do outro lado. Todas meras suposições.

 

Difícil de imediato descobrir os motivos, já que urge concentrar forças para a travessia.

O fato é que todos têm de atravessar o rio!

 

Quem ainda não o fez está à espera. E o rio não beneficia ninguém, nem os mais fortes, ricos, importantes ou poderosos, muitos dos quais se valem da situação para, com meras palavras, tentar se isentar das eventuais culpas da condução coletiva.

 

Neste momento, mudar a direção do caminho é possível somente quando se chegar do outro lado do impetuoso rio.

 

Um pequeno número já passou, outros estão tentando. Alguns são carregados pelas águas sem que os corpos possam ser tratados pelos seus. Outros restarão afogados. Grande parte ainda está à espera de sua vez, na esperança de sucesso.

 

Um contingente escondido aguarda que a correnteza se abrande, as águas baixem, atalhos ou artifícios surjam para um desafio facilitado. Em paralelo, surge a lamúria por não se ter tomado o desvio da ponte. Aquela que, em função da correria, ninguém conseguiu identificar e tendo ficado para trás, não se pode mais acessar.

 

O fato é que o rio está lá e lá ficará até que todos o transponham!

 

Talvez mais tarde sua fúria diminua. Uma espécie de lenitivo, significando maiores chances de êxito. Nisso muitos apostam tempo para prepararem resistência no enfrentamento com as águas.

 

Nesta luta, estender a mão não só ajudará o vizinho, como também permitirá a si próprio maior segurança. Ambos chegarão do outro lado com menos sofrimento. Os que encontram pedras para pisarem têm o encargo aliviado. Há também quem descobre saídas rasas e sai do embaraço de maneira amena.

 

Repita-se: triste ver o grupo que, por falta de tempo, não se preparou física e emocionalmente para o confronto ou os apanhados de surpresa, cansados da viagem. Esses se vão rio abaixo.

 

Angustiante é a presença de alguns imaginando que, ao alcançarem a outra margem, lá estarão em posição privilegiada. Mal sabem que estão sendo observados. Os de alma limpa parecem ser carregados por uma bela e gentil sereia ou por um hipotético Anjo da Guarda. Repentinamente se percebe já terem feito o transbordo.

 

Ousados, corajosos ou sem outra opção decidem enfrentar a batalha de imediato. Tão certo quanto lamentável é que nem todos conseguem êxito.

 

Cada um a sua maneira precisa cumprir a missão, aqui se dando conta de que o rio se concentrou em um leito estreito. Culpa do homem, que assim o obrigou no afã de cultivar suas várzeas até o limite do impossível.

 

O fato é que se quiserem sobreviver o rio precisa ser vencido!

 

Há aqueles que, com seus corpos esguios, não enfrentam grandes dificuldades. Os apegados às mochilas, em regra pesadas, lutam para não sucumbir. Os de pequeno porte, em princípio mais vulneráveis, flutuam, nadam e vencem suavemente a tarefa.

 

No olho da correnteza, abnegados têm coragem suficiente para pescar e matar a fome dos outros, colher os alimentos possíveis, prepará-los, tratar feridos, fornecer os poucos remédios e produzir equipamentos mesmo que improvisados. Alguns, em especial os mais devotos, oram.

 

Pessoas amontoam pedras acima para que a força das águas diminua ou abaixo para que sirvam de aparato àqueles que o fluxo tende a carregar. Afortunados vêem que a passagem não precisa ser abrupta, nem contra a correnteza, mas diagonal, a favor do fluxo. Esses, embora tendo feito o maior percurso, estão menos fatigados e vencem a missão.

 

O fato é que se vê de tudo!

 

A travessia, seja ela impiedosa, suportável ou tranquila, é contexto que se criou do qual não se pode fugir.

 

Finalmente, depois de ultrapassado o obstáculo, muitos dos vitoriosos farão os questionamentos. Sabiamente, o Deus no qual acreditam não dará as respostas, mas induzirá que busquem em si. Essas respostas serão tão coerentes e apropriadas quanto a experiência por que cada um dos sobreviventes passou seja capaz de alcançar.

 

E então, quando tudo acabado, o rio até então desconhecido não se omitirá. Em alto e bom som, ao ser indagado acerca de seu nome, responderá com sotaque chinês: “CORONÁRIO”.

 

Eng. Agr. e Seg. Trab. Edélcio Paulo Bonato

Conselheiro CREA/SC – AEAJO/Joaçaba

Abril/2020