O CO2 e as modernas indulgências

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Claude Pasteur Faria

claudefaria@terra.com.br

Durante muitos séculos, o comércio de indulgências foi uma excelente fonte de renda para a Igreja Católica e para padres e bispos desonestos que, contrariando os ensinamentos teológicos mais corretos, enganavam pobres e ricos vendendo-lhes a remissão dos pecados e aliviando suas consciências. Apesar de as indulgências serem, na verdade, o perdão dos efeitos temporais dos pecados e não o perdão dos pecados propriamente ditos, a maioria dos crentes acreditava que comprando indulgências estaria adquirindo uma vida eterna e feliz no paraíso.

A venda de indulgências sempre foi um negócio (ou uma negociata) tipicamente eclesiástico, monopólio da Igreja Católica e de seus representantes. Contudo, a partir de 1997, com o famoso protocolo de redução da emissão de gás carbônico negociado em Quioto, no Japão, esse comércio passou a ser também uma atividade secular, bastante lucrativa, realizada sob o título de venda de créditos de carbono.

Organizações ambientalistas do mundo todo, em associação com militantes de esquerda, religiosos, indigenistas e cientistas politicamente engajados, sob o comando da Organização das Nações Unidas, passaram a impor ao mundo uma visão catastrofista e apocalíptica dos efeitos do gás carbônico no aumento da temperatura do planeta. Segundo o pensamento dominante, a emissão de CO2 na atmosfera é a grande vilã do aquecimento global, apesar de centenas de cientistas no mundo todo duvidarem dessa tese, já tendo exposto suas fragilidades e falta de comprovação empírica.

A composição da atmosfera terrestre é conhecida com relativa precisão há muito tempo. Nela predominam os gases nitrogênio (78%) e oxigênio (21%), seguidos por vapor d’água (1%), argônio (0,93%) e pelo temível CO2, cuja presença corresponde à ínfima proporção de 0,039%! Outro vilão do clima, segundo os catastrofistas, seria o gás metano (CH4). Mas este se encontra presente na atmosfera na irrelevante quantidade relativa de 0,000179%, apesar de toda a atividade flatulenta dos rebanhos bovinos, caprinos e suínos do mundo.

Os guerrilheiros do clima querem nos fazer crer que esses dois gases, que somados representam apenas 0,0392% da atmosfera (ou 392 ppmv – partes por milhão em volume), são os vilões do aquecimento global. Para cada metro cúbico (1.000.000 de centímetros cúbicos) de ar na atmosfera, há aproximadamente 390 centímetros cúbicos de CO2 e dois centímetros cúbicos de CH4. Seria o equivalente a considerar que em uma floresta fechada com um milhão de metros quadrados, uma pequeníssima área de 392 m2 sem cobertura vegetal e esparsamente distribuída causasse danos a toda a mata. Alguma coisa está errada.

A religião do ambientalismo, além de ter arrebanhado um séquito enorme de fiéis, aboletados em ONGs que vivem à custa do dinheiro público, criou um novo tipo de indulgência. Os países ricos e industrializados, responsáveis por grande parte da

emissão de CO2 na atmosfera, em virtude, obviamente, da sua grande atividade industrial, não querem diminuir o nível de conforto atingido por suas populações. Por mais egoista que essa atitude possa parecer, a sobrevivência política das lideranças desses países depende do crescimento da economia, que, por sua vez, depende do crescimento constante da produção industrial, levada a cabo essencialmente pela iniciativa privada.

Mas por que a economia tem de crescer sem parar? Por uma questão para lá de óbvia, que quase ninguém tem coragem de enfrentar: continua nascendo gente demais no mundo, além do necessário para a manutenção saudável da espécie humana. O crescimento populacional é, de fato, o grande vilão da destruição ambiental, mas não por conta da injeção de carbono na atmosfera; culpe-se a sanha destrutiva do ser humano, que, a título ilustrativo, mata outras espécies pelo puro prazer de matar, chegando ao cúmulo de eliminar a vida de um elefante ou de um rinoceronte apenas para tirar uma foto desse feito "heroico", ou ainda, para usar suas presas e chifres com finalidades decorativas ou supostamente medicinais, o que é pura estupidez.

Para aplacar a consciência pesada dos países ricos foram criados os créditos de carbono, moderna indulgência que consiste basicamente no seguinte: a quantidade de toneladas de CO2 que as empresas dos países pobres deixam de injetar na atmosfera é transformada em créditos de carbono, os quais são comprados em bolsas de mercadorias pelas empresas dos países ricos, para que possam continuar a injetar carbono na atmosfera, em quantidades sempre crescentes para atender a também crescente demanda das pessoas por novos bens e serviços.

Como afirmou um ex-presidente do Brasil num famoso discurso que anda circulando pela internete, o fato de os países em desenvolvimento deixarem de poluir "sua" atmosfera não traz nenhum resultado prático para a humanidade. Como a Terra é redonda (disso ele tem certeza, o que é alvissareiro) e se encontra girando continuamente, nós, de pé sobre ela, giramos também e cruzamos diariamente através da atmosfera poluída dos países ricos (sic). Segundo esse político, se o mundo fosse um retângulo esse problema não existiria, sabe-se lá por quê.

Para azar dos ambientalistas o mundo não é retangular, e suas modernas indulgências de nada adiantarão para salvar o planeta, cujo destino já está traçado e não depende do CO2 que jogamos na atmosfera. Nosso algoz atende pelo nome de Sol, e nosso prazo de validade está fixado para daqui a 4,5 bilhões de anos, quando saberemos o que é, de fato, aquecimento global.

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